Usuário não-humano: o desafio da identidade digital para sistemas

Bruna Gomes
22 de outubro de 2025

A automação tem transformado profundamente a forma como as empresas operam, trazendo mais escalabilidade e acelerando processos. Bots, scripts, APIs, ferramentas de RPA e agentes de inteligência artificial já fazem parte da rotina de diversos setores. Mas junto com essa eficiência, cresce também o número de identidades não humanas (NHI – Non-Human Identities). 



Cada sistema automatizado, integração ou script em execução precisa de uma identidade para acessar dados, executar tarefas e interagir com outros sistemas. E é justamente aí que mora o perigo: essas identidades costumam ser invisíveis, mal gerenciadas e altamente exploráveis. 


Incidentes do mundo real já mostraram as consequências de deixar esse tipo de identidade sem controle. Ainda assim, muitas empresas não sabem quantas identidades não humanas possuem, onde estão, o que acessam ou quem é responsável por elas. 


Neste artigo, vamos entender o que são usuários não humanos, por que eles representam um desafio para a segurança digital e o que sua empresa pode (e deve) fazer para gerenciar essas identidades com mais controle, visibilidade e proteção. Continue a leitura! 

O que é um usuário não-humano? 

Quando pensamos em "usuário", a primeira imagem costuma ser a de uma pessoa acessando um sistema com login e senha. Mas no cenário digital atual, uma parte significativa das interações que ocorrem dentro de uma infraestrutura de TI não envolve seres humanos. São aplicações, máquinas, bots e processos automatizados que se comunicam entre si, executam tarefas e acessam dados em nome da operação. 


É aí que entram os usuários não-humanos, ou Non-Human Identities (NHI). Eles representam identidades digitais criadas para permitir que esses agentes automatizados interajam com sistemas, serviços e dados de forma segura e controlada. Isso inclui desde uma conta de serviço usada por um sistema interno, até uma chave de API que conecta dois aplicativos em nuvem, passando por certificados, tokens, scripts e agentes de inteligência artificial. 

Essas identidades não-humanas podem ser criadas e removidas conforme a demanda, e são essenciais para garantir o funcionamento de fluxos automatizados, integrações de dados, monitoramento em tempo real e orquestrações que mantêm a operação fluida e escalável. 


Exemplos comuns de NHI incluem: 


  • Contas de serviço (como aquelas usadas em servidores ou sistemas automatizados) 
  • Chaves de API (que permitem que sistemas se comuniquem com segurança) 
  • Tokens de autenticação (como OAuth) 
  • Certificados digitais 
  • Credenciais utilizadas por workloads na nuvem ou por ferramentas de automação 


Cada tipo de identidade tem uma função específica e, juntas, elas sustentam uma parte invisível, porém essencial, da operação digital moderna. Elas estão presentes em data centers, aplicações web, serviços em nuvem, ambientes de IoT e, mais recentemente, em agentes de IA que operam com autonomia parcial. 


Com o avanço da inteligência artificial, esse cenário se torna ainda mais complexo. Segundo o Gartner, até 2028, um terço das empresas terá pelo menos 15% de suas decisões feitas de forma autônoma por IA. Isso significa que a criação de identidades não-humanas - especialmente ligadas a sistemas inteligentes - será ainda mais comum, exigindo governança, controle centralizado e visibilidade contínua para evitar abusos ou acessos indevidos. 

NHI x Identidade de máquina: qual a diferença? 

Embora os termos muitas vezes se sobreponham, vale fazer uma distinção: 


  • Identidades de máquina costumam se referir a dispositivos físicos, como servidores, sensores, câmeras, equipamentos industriais e dispositivos IoT. 
  • Identidades não-humanas, por outro lado, incluem também elementos lógicos, como aplicações, serviços em nuvem, integrações e bots. 


Entender essa diferença é importante para que as empresas não subestimem o volume de acessos não monitorados dentro de suas infraestruturas. Afinal, o número de identidades não-humanas já supera o de usuários humanos em empresas que operam com automação e serviços em nuvem. 

Quais são os riscos associados a usuários não-humanos? 

Atribuir identidades a sistemas pode parecer um detalhe técnico, mas é uma etapa fundamental para garantir segurança e controle em ambientes cada vez mais automatizados. Bots, scripts, APIs, contas de serviço e processos orquestrados operam de forma autônoma, acessando dados, executando tarefas críticas e se comunicando com diferentes partes da infraestrutura digital de uma empresa. Para fazer isso com segurança, eles precisam ser autenticados, autorizados e monitorados, exatamente como qualquer usuário humano. 


O desafio começa porque essas identidades não-humanas não se comportam como pessoas. Elas não alteram senhas com frequência, não respondem a autenticação multifator e muitas vezes são criadas com privilégios amplos, que permanecem ativos indefinidamente. Isso significa que, se uma dessas credenciais for comprometida, o atacante pode se mover pela rede com liberdade, sem levantar alertas imediatos. 


Além disso, o número e a variedade de identidades não-humanas dentro de uma organização tendem a crescer de forma acelerada, impulsionados por automações, integrações em nuvem e pipelines de desenvolvimento contínuo. Com isso, muitas empresas perdem visibilidade sobre quais identidades foram criadas, quem as gerencia e quais acessos estão autorizados, criando uma superfície de ataque silenciosa e difícil de mapear. 


Essa combinação de invisibilidade, privilégios elevados e falta de controle centralizado torna as identidades não-humanas um ponto crítico dentro da estratégia de cibersegurança. Tratar essas entidades com o mesmo rigor aplicado a identidades humanas é uma condição básica para proteger ambientes modernos e cada vez mais automatizados. 

Como gerenciar identidades de sistemas e bots com segurança

Com o crescimento das identidades não-humanas, manter o controle sobre acessos automatizados se tornou um dos maiores desafios da segurança digital. Bots, scripts, APIs, contas de serviço e agentes de IA operam com agilidade, mas sem governança adequada, podem se transformar em pontos cegos dentro da infraestrutura da empresa. 

Gerenciar essas identidades com segurança exige mais do que saber que elas existem. É necessário implementar práticas específicas, voltadas para visibilidade, controle e prevenção. A seguir, destacamos os pilares essenciais para uma gestão segura de NHIs: 


1.Mapeamento e descoberta de identidades: 

O primeiro passo é saber quantas identidades não-humanas existem na organização, onde estão e o que acessam. Ferramentas de descoberta e inventário ajudam a mapear todas as NHIs (inclusive aquelas criadas sem governança formal) e revelam riscos ocultos que precisam de atenção. 


2.Implementação de políticas de acesso com privilégio mínimo:  

Cada identidade deve ter apenas os acessos estritamente necessários para cumprir sua função. A prática do least privilege reduz o impacto de credenciais comprometidas e limita movimentações laterais em caso de ataque. Além disso, acessos devem ser concedidos com base em funções e revogados assim que deixarem de ser necessários. 


3.Automação do gerenciamento do ciclo de vida: 

Criar, atualizar, revogar e revisar identidades de forma manual é inviável em ambientes com centenas ou milhares de NHIs. Automatizar esse ciclo, com base em regras e gatilhos, reduz erros humanos, acelera respostas e fortalece a consistência da gestão. 


4.Uso de autenticação forte e certificados efêmeros: 

Identidades não-humanas muitas vezes operam com credenciais estáticas e permanentes, como senhas hardcoded ou chaves sem expiração. Para evitar isso, o ideal é adotar certificados de curta duração, tokens temporários e mecanismos de autenticação forte, alinhados às práticas modernas de segurança. 


5.Monitoramento contínuo e auditoria de acessos: 

Saber quem (ou o quê) está acessando o quê (e quando) é essencial. Monitorar os acessos em tempo real e manter trilhas de auditoria permite identificar comportamentos anômalos, responder rapidamente a incidentes e comprovar conformidade com políticas e normas regulatórias. 


6.Integração com princípios de Zero Trust:

Em um modelo de Zero Trust, nenhum acesso é confiável por padrão, nem mesmo dentro da rede. Cada solicitação de acesso por uma identidade não-humana deve ser verificada, autenticada e validada continuamente. Essa abordagem fortalece a proteção mesmo em ambientes distribuídos e dinâmicos, como os baseados em nuvem. 



Aplicar essas práticas não apenas reduz riscos operacionais, mas aumenta a maturidade digital da organização, promovendo um ambiente mais confiável, resiliente e preparado para o futuro da automação. 

Conclusão

À medida que a automação se expande e a inteligência artificial ganha espaço nos processos corporativos, as identidades não-humanas se tornam protagonistas silenciosas da operação digital. Mas, sem a devida governança, podem abrir brechas invisíveis e extremamente perigosas. 


Ignorar ou subestimar a gestão desses acessos é assumir um risco que cresce a cada nova integração, script ou pipeline em produção. Para os profissionais de segurança cibernética e de TI, o apelo é para priorizar a gestão e a proteção das identidades não-humanas como parte central da sua estratégia de segurança. Ao fazer isso, sua organização estará mais preparada para prevenir acessos indevidos, mitigar riscos de vazamentos e manter a integridade dos sistemas.


A Contacta apoia empresas nesse processo com uma abordagem estratégica, técnica e personalizada para que a automação continue sendo uma aliada da eficiência, sem comprometer a segurança. 



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