Quase 40 anos de tecnologia nos ensinaram uma coisa: as ferramentas mudam. O desafio de conectá-las às pessoas continua.

Helena Motta
21 de outubro de 2026

Em 1988, quando a Contacta foi fundada, a tecnologia corporativa tinha endereço certo. Ficava em salas climatizadas, atrás de portas com controle de acesso, e os usuários chegavam a ela por terminais e redes que a própria empresa controlava de ponta a ponta. Proteger um sistema era, em boa medida, proteger o lugar onde ele estava. 


Quase quatro décadas depois, essa imagem parece de outra era. Os sistemas que sustentam uma organização estão espalhados entre data centers próprios, provedores de nuvem e aplicações contratadas como serviço. São acessados de escritórios, de casas, de aeroportos, por telefones e computadores que ninguém na área de TI viu pessoalmente. Quase tudo mudou, do hardware às linguagens e da forma de contratar à forma de operar. 


Acompanhar essa sequência de transformações nos deixou menos impressionados com a novidade e mais atentos ao que se repete. Cada geração de tecnologia chegou com uma promessa de simplificação, e em cada uma delas o trabalho difícil acabou sendo o mesmo: entender o que uma organização precisa, conectar as ferramentas disponíveis a esse propósito e garantir que as pessoas consigam, de fato, trabalhar com elas. Nossa missão sempre foi conectar pessoas por meio da tecnologia. Ela dá a medida do que a tecnologia deve entregar, mais do que o que ela é.

A nuvem e o mito da mudança de endereço

Ao longo da nossa história, atuamos bastante na migração de grandes organizações para a nuvem, e foi nessa experiência que aprendemos uma das lições mais importantes do nosso ofício. 


À primeira vista, migrar parece uma operação logística: pegar aplicações e dados que vivem em servidores próprios e levá-los para outro lugar. Quem passa pelo processo descobre rapidamente que o endereço é o detalhe menos relevante. Uma aplicação raramente existe sozinha. Ela depende de outras, conversa com bases de dados, é consumida por pessoas com diferentes níveis de permissão e foi desenhada, muitas vezes anos antes, com premissas sobre rede e segurança que deixam de valer fora do ambiente original. 


Por isso, migrar obriga a revisitar perguntas que muitas empresas não faziam havia tempo. Quem acessa o quê, e a partir de onde? O que acontece com a conectividade quando parte do ambiente muda de lugar e parte permanece? Como se garante continuidade se uma dependência que ninguém havia mapeado deixa de responder? Onde estão, afinal, os dados que precisam de proteção? 


A lição que ficou é que transformar a tecnologia de uma empresa é muito mais do que mudar o lugar onde seus sistemas estão hospedados. Quando a migração é tratada como substituição de infraestrutura, o resultado costuma ser o mesmo ambiente de antes, só que mais caro de entender e mais difícil de proteger. Quando é tratada como oportunidade de rever arquitetura, processos e riscos, a nuvem passa a fazer sentido. A diferença quase nunca está na plataforma escolhida, e quase sempre está na qualidade da conversa que antecede a escolha. 

O perímetro que deixou de existir

Houve um tempo em que proteger uma aplicação significava, em grande parte, proteger a rede em que ela estava instalada. O raciocínio era claro: havia um dentro e um fora, e a segurança se concentrava na fronteira entre os dois. 


A expansão da nuvem, das aplicações SaaS e do acesso remoto desfez essa fronteira de maneira gradual. Em algum momento, a mesma aplicação passou a depender de diferentes serviços em nuvem e a ser acessada por usuários em várias localidades, com dispositivos pessoais e corporativos se misturando no mesmo dia de trabalho. Em nossas conversas com clientes e em nossos materiais, chamamos esse cenário de “caos topológico”: um ambiente em que usuários, aplicações, dispositivos e dados estão distribuídos, e a pergunta “onde fica a borda?” já não tem uma resposta simples. 


A segurança teve de acompanhar essa mudança. Se o perímetro deixou de ser o ponto de referência, o que passou a importar foram as identidades, os dados e as aplicações, onde quer que estivessem. Hoje, saber quem é quem e a que cada um deveria ter acesso pesa tanto quanto qualquer muro, e talvez mais. Essa também é uma lição que a experiência nos ensinou: quanto mais conectada uma organização se torna, mais sofisticada precisa ser a forma de protegê-la.

Ferramentas não são arquitetura 

Há um equívoco recorrente nesse caminho, e o vimos se repetir em diferentes gerações de tecnologia: a ideia de que a proteção cresce na proporção das soluções adquiridas. Uma empresa pode ter muitas ferramentas de segurança e, ainda assim, ter dificuldade para enxergar o próprio ambiente, integrar o que comprou e operar tudo isso no dia a dia. Cada ferramenta resolve bem o problema para o qual foi criada. O que ninguém compra pronto é a coerência entre elas. 


Por isso, sempre nos pareceu mais honesto começar pelo entendimento do ambiente do que pelo produto. É preciso avaliar o que existe, desenhar uma arquitetura que faça sentido para aquela organização, implantar com cuidado e acompanhar a operação depois. Parece óbvio quando dito assim, mas é um trabalho que não aparece em nenhuma tabela de funcionalidades. A segurança de uma empresa é uma propriedade do conjunto e depende de decisões tomadas antes, durante e depois da compra. 


Há ainda um aprendizado que costuma ser subestimado. Uma estratégia de segurança que ignora a experiência de quem usa os sistemas tende a ser contornada. Se proteger significa impedir que as pessoas trabalhem, elas encontram um atalho, e o atalho quase sempre é pior do que o problema que se queria resolver. A boa proteção é aquela que convive com a produtividade, a colaboração e a continuidade da operação. Foi isso que aprendemos ao lembrar, projeto após projeto, que do outro lado de qualquer sistema há alguém tentando fazer o seu trabalho. 

Novas tecnologias, perguntas conhecidas

Hoje, a inteligência artificial ocupa o centro dessa conversa, e com razão. Ela traz riscos novos e exige formas novas de proteção. Não pretendemos minimizar nada disso. 


Mas quem acompanhou outras transformações reconhece algo familiar quando examina os problemas de perto. Um agente de IA que acessa sistemas internos levanta perguntas sobre identidade e permissões. Um modelo alimentado com informações corporativas levanta perguntas sobre proteção e governança de dados. Uma aplicação que usa serviços de terceiros levanta perguntas sobre visibilidade: o que está rodando, com acesso a quê, e quem responde por isso? São versões novas de questões antigas, e as empresas que cuidaram bem dos fundamentos tendem a atravessar cada onda com menos sobressaltos. 


Isso vale também para uma observação mais ampla. Não existe arquitetura definitiva. As necessidades das organizações mudam, as ameaças evoluem, as ferramentas se renovam, e decisões que eram acertadas há cinco anos podem deixar de ser. A capacidade de aprender, rever e ajustar vale mais do que qualquer escolha tecnológica isolada. É uma ideia que sempre nos acompanhou, algo próximo do que já chamamos de #AlwaysGetBetter: a disposição de continuar melhorando justamente porque nada está terminado.

O que permanece 


Quando olhamos para trás, o que impressiona é menos a quantidade de tecnologias que passaram por nós do que a constância das perguntas que elas deixaram. Como garantir que as pessoas consigam acessar o que precisam? Como proteger o que importa sem travar a operação? Como decidir bem num ambiente que não para de mudar? 


As ferramentas que respondem a essas perguntas serão outras daqui a dez anos, como já foram outras dez, vinte e trinta anos atrás. O trabalho de conectá-las às necessidades reais de uma organização, e às pessoas que dependem dela, continuará exigindo escuta, análise e critério. Foi isso que quase quarenta anos nos ensinaram, e é o que pretendemos continuar praticando. 


Por Helena Motta • 7 de outubro de 2026
O usuário é o alvo preferido dos atacantes, mas chamá-lo de elo mais fraco esconde metade do problema. Quando alguém clica em um link malicioso, quase sempre também houve um e-mail que passou pelo filtro, uma conta sem segundo fator de autenticação ou um acesso com mais privilégio do que o necessário. Outubro é o mês da campanha Cybersecurity Awareness Month, e a data é uma boa ocasião para rever essa pergunta com mais honestidade.
Por Helena Motta • 16 de setembro de 2026
Uma aplicação SaaS pode estar homologada pela empresa, ter autenticação multifator habilitada, usuários devidamente cadastrados e um fornecedor com boas práticas de segurança. Ainda assim, pode existir um caminho para dados críticos que a equipe de segurança simplesmente não está enxergando. Esse caminho pode ter começado de maneira bastante legítima: alguém conectou uma ferramenta ao CRM para automatizar uma tarefa. Outro time autorizou um aplicativo a acessar arquivos corporativos. Uma integração via API foi criada para um projeto que terminou meses atrás. Uma conta de serviço ganhou permissões temporárias que nunca foram removidas. Nada disso parece particularmente alarmante quando observado isoladamente, o problema aparece quando essas conexões se acumulam. O SaaS tornou mais simples contratar aplicações, integrar plataformas e automatizar processos. Essa agilidade é uma das razões de sua adoção, mas também fragmentou a superfície que TI e Segurança precisam acompanhar. Hoje, proteger o ambiente não significa apenas saber quais aplicações a empresa utiliza. É necessário entender como elas se conectam, quais dados circulam entre elas e o que cada conexão está autorizada a fazer .
Por Helena Motta • 2 de setembro de 2026
Quando pensamos em ransomware, ainda é comum imaginar um hacker trabalhando sozinho, desenvolvendo um malware e procurando uma empresa vulnerável para atacar. Porém, essa imagem está cada vez mais distante da realidade. Hoje, muitas operações de ransomware fazem parte de um ecossistema estruturado, com desenvolvedores, operadores, afiliados, fornecedores de acesso, infraestrutura própria e modelos de divisão de receita. A Fortinet descreve essa evolução como uma industrialização do cibercrime , marcada por especialização de funções, automação e estruturas capazes de transformar acessos comprometidos em lucro de forma cada vez mais eficiente. Um dos principais responsáveis por essa transformação é o Ransomware-as-a-Service (RaaS) . Mais do que uma nova maneira de distribuir malware, o RaaS criou um modelo no qual diferentes criminosos podem participar de partes específicas de uma operação sem precisar dominar todo o processo de ataque.
Por Helena Motta • 5 de agosto de 2026
A discussão recente sobre inteligência artificial e cibersegurança esteve concentrada por muito tempo em uma pergunta: a IA será capaz de realizar um ataque cibernético? O episódio envolvendo a OpenAI e a Hugging Face mostra que essa pergunta já não é suficiente. Em julho de 2026, a OpenAI informou que agentes de inteligência artificial utilizados em uma avaliação interna conseguiram explorar vulnerabilidades, sair de um ambiente de testes isolado, obter acesso à internet e comprometer parte da infraestrutura da Hugging Face. A própria empresa classificou o caso como um incidente cibernético sem precedentes. A própria OpenAI classificou o episódio como um  incidente cibernético sem precedentes , expressão que também ganhou destaque na cobertura da UOL/AFP sobre o caso. O caso não significa que uma IA tenha desenvolvido consciência, intenção própria ou vontade de atacar uma organização. Os agentes estavam orientados a alcançar um objetivo definido durante um teste de capacidade cibernética. O problema é que, para cumprir essa tarefa, encontraram caminhos que ultrapassaram os limites esperados pelos pesquisadores. Essa diferença é importante. O risco não está em uma máquina “decidir se rebelar”, como algumas interpretações sugerem. Está na capacidade de sistemas autônomos encontrarem meios inesperados para atingir uma meta, especialmente quando possuem acesso a ferramentas, credenciais, ambientes corporativos e recursos computacionais. Para as empresas, o incidente deixa dois alertas. O primeiro está relacionado ao avanço do pentest com inteligência artificial. O segundo envolve a governança dos agentes de IA que já começam a fazer parte das operações corporativas. O episódio também ganhou repercussão internacional por mostrar que capacidades antes observadas principalmente em avaliações controladas já podem produzir consequências em infraestruturas reais. A cobertura da BBC News Brasil sobre o incidente ajuda a contextualizar por que o caso ampliou o debate sobre autonomia, limites operacionais e governança de agentes de IA.
Por Helena Motta • 1 de julho de 2026
Durante muito tempo, a gestão de vulnerabilidades seguiu uma lógica relativamente simples: identificar falhas, classificá-las por criticidade e iniciar a correção a partir das mais graves. Essa abordagem ainda tem valor, mas já não responde sozinha à complexidade do cenário atual. Hoje, as empresas lidam com ambientes cada vez mais distribuídos, ativos em nuvem, sistemas legados, aplicações de terceiros, APIs, bibliotecas open sourc e e uma superfície de ataque em constante expansão. Em paralelo, atacantes passaram a explorar falhas com mais velocidade, enquanto as equipes de segurança precisam lidar com volumes cada vez maiores de alertas, correções e decisões. Esse cenário torna a gestão de vulnerabilidades menos linear. A criticidade continua sendo um indicador importante, mas não deve ser o único critério para definir prioridade. Em muitos casos, uma vulnerabilidade considerada média pode representar mais risco para o negócio do que uma falha crítica, dependendo de onde ela está, do ativo afetado e da possibilidade real de exploração.
Por Helena Motta • 16 de junho de 2026
Seja na automação de tarefas, na análise de dados, no desenvolvimento de software ou no atendimento ao cliente, a adoção das ferramentas que utilizam inteligência artificial generativa cresce em um ritmo que poucas tecnologias conseguiram alcançar. O problema é que a velocidade da adoção nem sempre vem acompanhada da mesma maturidade em segurança. Enquanto as organizações buscam ganhos de produtividade e eficiência, novas preocupações surgem. Informações confidenciais sendo inseridas em ferramentas públicas, falta de visibilidade sobre o uso da tecnologia, vulnerabilidades em aplicações baseadas em IA e desafios de governança são apenas alguns exemplos. Durante o webinar "Cibersegurança aplicada à adoção de IA pelas empresas", realizado pela Contacta em parceria com a Check Point, foi apresentado um modelo que ajuda a entender onde estão os principais riscos e como criar uma estratégia de proteção mais abrangente.  A proposta é simples: segurança em IA não deve ser tratada como um único controle ou ferramenta. Ela precisa acompanhar toda a jornada da inteligência artificial dentro da organização.
Por Helena Motta • 20 de maio de 2026
A inteligência artificial deixou de ser um tema restrito à inovação ou a projetos experimentais. Hoje, ela já está presente na rotina de muitas empresas, apoiando atividades como análise de dados, automação de processos, produtividade, atendimento e segurança. Na prática, isso significa que a IA deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio e passou a influenciar decisões operacionais e estratégicas. Em áreas de segurança, por exemplo, ela já é utilizada para correlacionar eventos, identificar comportamentos anômalos, acelerar triagens e ajudar equipes a priorizarem riscos. Esse avanço traz ganhos importantes de escala e velocidade. Mas, ao mesmo tempo, amplia uma discussão que se tornou cada vez mais relevante para áreas de TI, segurança e governança: até que ponto decisões críticas podem ser automatizadas sem supervisão humana? À medida que a IA passa a atuar em processos mais sensíveis, a questão deixa de ser apenas adoção. Ela passa a envolver controle, contexto e responsabilidade. É nesse cenário que o conceito de Human in the Loop (HITL) ganha relevância.
Por Helena Motta • 28 de abril de 2026
Você tem firewall . Tem antivírus. Tem SIEM . Sente que sua empresa está protegida, mas essa sensação pode ser exatamente o maior risco que você corre hoje. Existe um protocolo que opera silenciosamente em 100% dos dispositivos da sua rede, que raramente é inspecionado em profundidade pelas soluções de segurança convencionais, e que está sendo explorado ativamente por atacantes para roubar dados, instalar malware e estabelecer canais de controle remoto. Esse protocolo é o DNS (Domain Name System) . Neste artigo, vamos mostrar por que o DNS se tornou o novo campo de batalha da cibersegurança, quais ameaças ele esconde e o que os dados reais de empresas brasileiras revelam sobre esse problema.
Por Helena Motta • 2 de abril de 2026
O aumento gradual da superfície de ataque, impulsionado pela adoção de cloud , APIs e ambientes híbridos, mudou a forma como as organizações precisam lidar com segurança. Não basta mais reagir a incidentes: é necessário antecipar movimentos de adversários e entender como eles operam. É nesse contexto que a Threat Intelligence ganha relevância. Mais do que coletar dados sobre ataques, trata-se de transformar informações em decisões estratégicas e operacionais. Empresas que adotam essa abordagem conseguem reduzir o tempo de resposta, priorizar melhor seus investimentos e evitar impactos significativos no negócio. Segundo a Recorded Future , o uso de Threat Intelligence permite “identificar, contextualizar e antecipar ameaças antes que elas impactem a organização”, tornando a segurança mais orientada por dados reais de ataque.
Observabilidade em APIs: o que monitorar para evitar falhas e ataques
Por Helena Motta • 17 de março de 2026
As APIs deixaram de ser meros conectores entre sistemas para se tornarem componentes centrais das operações digitais modernas . Elas permitem que aplicações, serviços em nuvem e microserviços funcionem de forma integrada, sustentando desde transações financeiras até plataformas de consumo de dados em larga escala. Com essa importância, surge também um novo nível de exposição: falhas silenciosas ou ataques direcionados podem comprometer sistemas inteiros se não houver monitoramento adequado. A observabilidade em APIs surge como uma estratégia essencial para evitar falhas operacionais e reduzir riscos de segurança . Diferente do monitoramento tradicional, que se limita a acompanhar métricas pré-definidas, a observabilidade busca entender o estado interno do sistema a partir dos dados que ele gera, permitindo diagnósticos mais precisos e respostas mais rápidas.