A industrialização do cibercrime: como o Ransomware-as-a-Service transformou hackers em empresas estruturadas

Helena Motta
2 de setembro de 2026

Quando pensamos em ransomware, ainda é comum imaginar um hacker trabalhando sozinho, desenvolvendo um malware e procurando uma empresa vulnerável para atacar. Porém, essa imagem está cada vez mais distante da realidade. 


Hoje, muitas operações de ransomware fazem parte de um ecossistema estruturado, com desenvolvedores, operadores, afiliados, fornecedores de acesso, infraestrutura própria e modelos de divisão de receita. 


A Fortinet descreve essa evolução como uma industrialização do cibercrime, marcada por especialização de funções, automação e estruturas capazes de transformar acessos comprometidos em lucro de forma cada vez mais eficiente. 


Um dos principais responsáveis por essa transformação é o Ransomware-as-a-Service (RaaS). Mais do que uma nova maneira de distribuir malware, o RaaS criou um modelo no qual diferentes criminosos podem participar de partes específicas de uma operação sem precisar dominar todo o processo de ataque.


O que é Ransomware-as-a-Service? 

No modelo RaaS, os responsáveis pelo desenvolvimento do ransomware disponibilizam sua tecnologia e infraestrutura para outros criminosos, conhecidos como afiliados


De acordo com a CISA, esse modelo é como uma estrutura na qual operadores mantêm uma variante de ransomware e oferecem acesso a ela em troca de pagamento inicial, assinatura, participação nos lucros ou uma combinação desses formatos. 


Na prática, quem desenvolve a ferramenta não precisa necessariamente executar cada ataque. Os operadores podem cuidar do malware, infraestrutura e painéis de gerenciamento, enquanto afiliados buscam vítimas e conduzem as invasões. 


Um exemplo documentado pela Check Point Research é o VanHelsingRaaS. Quando surgiu, em março de 2025, o programa exigia de novos afiliados um depósito de US$ 5 mil. Os afiliados recebiam 80% dos pagamentos obtidos, enquanto os operadores ficavam com os outros 20%. A operação também oferecia painel administrativo e suporte a diferentes plataformas, incluindo Windows, Linux, BSD, ARM e ESXi. 


A comparação com empresas legítimas deve ser entendida apenas como uma analogia operacional porque nesse caso, estamos falando de atividade criminosa. Mas ela ajuda a explicar a mudança: o cibercrime incorporou especialização, terceirização e incentivos econômicos para ganhar escala.


Uma cadeia de fornecedores do crime

O RaaS não funciona isoladamente porque ao redor dessas operações surgiu um mercado no qual diferentes atores podem assumir funções específicas: Desenvolvedores criam e atualizam o ransomware, operadores administram o programa, afiliados conduzem ataques, Initial Access Brokers (IABs) podem se especializar em obter ou vender acessos previamente comprometidos. 


Além disso, outros criminosos negociam credenciais, infraestrutura ou recursos necessários para etapas específicas da intrusão. 


A Fortinet destaca justamente essa evolução para um mercado sustentado por funções especializadas, automação e disponibilidade de acessos comprometidos. 


Isso reduz uma barreira importante, já que um criminoso que sabe movimentar-se dentro de uma rede, mas não possui capacidade para desenvolver um ransomware sofisticado, pode recorrer a ferramentas criadas por terceiros. 


O acesso inicial também pode vir de outro participante, uma vez que a infraestrutura pode ser fornecida por outro serviço criminoso. As competências necessárias para executar o ataque deixam de precisar existir dentro do mesmo grupo.

O cibercrime criou seu próprio mercado entre fornecedores

Um Initial Access Broker pode ter como “produto” apenas o acesso a uma organização comprometida. 


Um desenvolvedor pode se concentrar exclusivamente no malware. 


Um operador de RaaS precisa atrair afiliados capazes de utilizar sua plataforma. 


O caso do LockBit ajuda a visualizar essa lógica. CISA, FBI e parceiros internacionais documentaram que a operação utilizava condições de pagamento favoráveis e uma interface simplificada para atrair afiliados, inclusive participantes com menor nível técnico. 


Quanto mais simples se torna operar a infraestrutura criminosa, menor tende a ser a barreira de entrada para determinados participantes. A escala do ransomware deixa, portanto, de depender apenas da quantidade de especialistas capazes de desenvolver malware do zero.

Reputação também importa no mercado criminoso

Outro paralelo inesperado com mercados legítimos é a importância da reputação. 


Afiliados precisam acreditar que os operadores cumprirão sua parte dos acordos. Os operadores, por sua vez, precisam atrair participantes capazes de gerar receita. 


A Check Point Research observou essa dinâmica no grupo Qilin, que combinava recrutamento de afiliados com gestão centralizada e participação de até 80% ou 85% para quem executava os ataques. 


É um paradoxo: organizações criminosas precisam construir relações de confiança dentro de um mercado baseado em invasão e extorsão.

Derrubar um grupo não elimina o ecossistema 

Operações policiais internacionais conseguiram desarticular ou enfraquecer importantes grupos de ransomware nos últimos anos. 


Mas existe uma consequência importante da industrialização: eliminar uma marca não significa necessariamente eliminar as pessoas, conhecimentos e relações econômicas que existiam ao redor dela. Isso acontece porque afiliados podem migrar, novas operações podem surgir e a infraestrutura pode mudar de nome ou ser reconstruída. 


No terceiro trimestre de 2025, a Check Point Research identificou 85 grupos ativos de extorsão. Os dez maiores concentravam 56% das vítimas publicadas, contra 71% no primeiro trimestre daquele ano, sinal de um mercado mais fragmentado. 


Isso mostra a diferença entre combater um malware e combater um ecossistema econômico criminoso

O ransomware virou um “produto” em constante evolução 

A industrialização também aparece na velocidade de desenvolvimento. A Check Point analisou duas versões do VanHelsing compiladas com apenas cinco dias de diferença e encontrou mudanças relevantes entre elas: 


  • Ferramentas são atualizadas. 
  • Novas funcionalidades aparecem. 
  • Programas disputam afiliados. 
  • Infraestruturas evoluem. 

O ransomware deixa de ser apenas um artefato criado para uma campanha e passa a fazer parte de uma operação que precisa continuar funcionando e gerando retorno.

Da criptografia para a extorsão 

O próprio modelo de monetização também mudou. O NIST reconhece em sua atualização de 2026 sobre ransomware que atacantes podem não apenas criptografar informações, mas também roubar dados e exigir pagamentos adicionais para impedir sua divulgação


Isso significa que restaurar arquivos nem sempre encerra o incidente. Se informações estratégicas, dados de clientes ou propriedade intelectual já foram exfiltrados, a organização continua exposta à pressão do atacante. 


O ransomware moderno precisa, portanto, ser compreendido dentro de uma lógica mais ampla de extorsão digital.

A inteligência artificial pode acelerar essa industrialização 

A IA adiciona uma nova variável ao problema. A Fortinet projeta para 2026 um ambiente de ameaças cada vez mais definido por velocidade, automação e escala, com IA apoiando diferentes etapas das operações criminosas. 


Já o 2026 Global Threat Landscape Report, também destaca que novas vulnerabilidades podem começar a ser exploradas em horas ou dias, comprimindo a janela disponível para resposta. 


O Gartner segue uma linha semelhante: sua análise sobre ransomware e extortionware em 2026 aponta que a IA aumenta escala, volume e sofisticação dos ataques. 


O risco mais importante talvez não seja um “ransomware criado por IA”, mas o aumento de produtividade de cada parte da cadeia criminosa. 


RaaS reduz a necessidade de construir tudo do zero. IA e automação podem reduzir ainda mais o tempo necessário para operar. 

O que muda para a defesa das empresas? 

Se o ataque funciona como uma cadeia, a defesa também precisa funcionar em camadas. A estratégia não pode depender apenas de uma ferramenta capaz de detectar a criptografia no estágio final. É necessário atuar antes. 


Isso inclui: 


  • gestão contínua de vulnerabilidades e exposição; 
  • proteção de identidades e privilégios; 
  • MFA e controle de acessos privilegiados; 
  • segmentação e microsegmentação; 
  • monitoramento de endpoint, rede, identidade e cloud; 
  • proteção de ambientes cloud e superfícies externas; 
  • backups protegidos e testados; 
  • planos estruturados de resposta a incidentes. 

O NIST organiza justamente a gestão do risco de ransomware ao redor das seis funções do Cybersecurity Framework 2.0: Governar, Identificar, Proteger, Detectar, Responder e Recuperar


Essa visão é importante porque ransomware raramente começa na criptografia. Ele pode começar com uma vulnerabilidade, uma credencial comprometida ou um serviço exposto. 


O desafio é impedir que esse primeiro acesso evolua até os sistemas críticos.

Conclusão

O Ransomware-as-a-Service não criou o ransomware, mas mudou profundamente a forma como esse tipo de operação pode crescer. Ao separar desenvolvimento, execução, infraestrutura e distribuição de receita entre diferentes participantes, o modelo reduziu a dependência de grupos capazes de dominar todas as etapas de um ataque. 


Essa especialização ajudou a transformar o ransomware em uma ameaça mais persistente e mais difícil de combater. Enquanto desenvolvedores aprimoram ferramentas, afiliados conduzem ataques e outros atores fornecem acessos, infraestrutura ou serviços complementares, o ecossistema criminoso ganha escala sem precisar concentrar todas as competências em uma única organização. 


Para as empresas, isso exige uma mudança de perspectiva. A discussão não pode ficar restrita à pergunta “temos uma tecnologia capaz de bloquear ransomware?”. Também é preciso entender o que acontece depois de um primeiro comprometimento. 


Se um atacante conseguir acesso ao ambiente, quantas barreiras ainda existirão entre esse ponto inicial e os ativos mais críticos da organização? E quão rápido será possível detectar, conter e interromper essa movimentação? 



Quanto mais estruturado e especializado se torna o cibercrime, mais integrada precisa ser a defesa.


Por Helena Motta 5 de agosto de 2026
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Por Helena Motta 1 de julho de 2026
Durante muito tempo, a gestão de vulnerabilidades seguiu uma lógica relativamente simples: identificar falhas, classificá-las por criticidade e iniciar a correção a partir das mais graves. Essa abordagem ainda tem valor, mas já não responde sozinha à complexidade do cenário atual. Hoje, as empresas lidam com ambientes cada vez mais distribuídos, ativos em nuvem, sistemas legados, aplicações de terceiros, APIs, bibliotecas open sourc e e uma superfície de ataque em constante expansão. Em paralelo, atacantes passaram a explorar falhas com mais velocidade, enquanto as equipes de segurança precisam lidar com volumes cada vez maiores de alertas, correções e decisões. Esse cenário torna a gestão de vulnerabilidades menos linear. A criticidade continua sendo um indicador importante, mas não deve ser o único critério para definir prioridade. Em muitos casos, uma vulnerabilidade considerada média pode representar mais risco para o negócio do que uma falha crítica, dependendo de onde ela está, do ativo afetado e da possibilidade real de exploração.
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Seja na automação de tarefas, na análise de dados, no desenvolvimento de software ou no atendimento ao cliente, a adoção das ferramentas que utilizam inteligência artificial generativa cresce em um ritmo que poucas tecnologias conseguiram alcançar. O problema é que a velocidade da adoção nem sempre vem acompanhada da mesma maturidade em segurança. Enquanto as organizações buscam ganhos de produtividade e eficiência, novas preocupações surgem. Informações confidenciais sendo inseridas em ferramentas públicas, falta de visibilidade sobre o uso da tecnologia, vulnerabilidades em aplicações baseadas em IA e desafios de governança são apenas alguns exemplos. Durante o webinar "Cibersegurança aplicada à adoção de IA pelas empresas", realizado pela Contacta em parceria com a Check Point, foi apresentado um modelo que ajuda a entender onde estão os principais riscos e como criar uma estratégia de proteção mais abrangente.  A proposta é simples: segurança em IA não deve ser tratada como um único controle ou ferramenta. Ela precisa acompanhar toda a jornada da inteligência artificial dentro da organização.
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A inteligência artificial deixou de ser um tema restrito à inovação ou a projetos experimentais. Hoje, ela já está presente na rotina de muitas empresas, apoiando atividades como análise de dados, automação de processos, produtividade, atendimento e segurança. Na prática, isso significa que a IA deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio e passou a influenciar decisões operacionais e estratégicas. Em áreas de segurança, por exemplo, ela já é utilizada para correlacionar eventos, identificar comportamentos anômalos, acelerar triagens e ajudar equipes a priorizarem riscos. Esse avanço traz ganhos importantes de escala e velocidade. Mas, ao mesmo tempo, amplia uma discussão que se tornou cada vez mais relevante para áreas de TI, segurança e governança: até que ponto decisões críticas podem ser automatizadas sem supervisão humana? À medida que a IA passa a atuar em processos mais sensíveis, a questão deixa de ser apenas adoção. Ela passa a envolver controle, contexto e responsabilidade. É nesse cenário que o conceito de Human in the Loop (HITL) ganha relevância.
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Você tem firewall . Tem antivírus. Tem SIEM . Sente que sua empresa está protegida, mas essa sensação pode ser exatamente o maior risco que você corre hoje. Existe um protocolo que opera silenciosamente em 100% dos dispositivos da sua rede, que raramente é inspecionado em profundidade pelas soluções de segurança convencionais, e que está sendo explorado ativamente por atacantes para roubar dados, instalar malware e estabelecer canais de controle remoto. Esse protocolo é o DNS (Domain Name System) . Neste artigo, vamos mostrar por que o DNS se tornou o novo campo de batalha da cibersegurança, quais ameaças ele esconde e o que os dados reais de empresas brasileiras revelam sobre esse problema.
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A computação em nuvem deixou de ser apenas uma escolha tecnológica para se tornar a base operacional de muitas organizações. Aplicações críticas, bases de dados sensíveis e processos estratégicos hoje dependem de ambientes IaaS, PaaS e SaaS altamente distribuídos. Esse movimento ampliou a agilidade dos negócios, mas também expandiu significativamente a superfície de ataque. Em paralelo, relatórios recentes de grandes players como a Crowdstrike mostram que adversários estão cada vez mais focados em explorar ambientes cloud, especialmente por meio de credenciais comprometidas e falhas de configuração. Diante desse cenário, maturidade em Cloud Security passa a ser um tema estratégico. Não se trata apenas de possuir ferramentas de segurança, mas de entender o nível real de preparo da organização para prevenir, detectar e responder a ameaças em um ambiente dinâmico e descentralizado.
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Durante muito tempo, segurança de rede foi praticamente sinônimo de proteger o perímetro. Bastava ter um bom firewall na entrada e organizar os ativos internos por zonas relativamente estáticas. Esse modelo funcionava bem quando aplicações estavam concentradas em data centers próprios, usuários trabalhavam majoritariamente dentro da empresa e os fluxos de comunicação eram previsíveis. Esse cenário mudou radicalmente. Hoje, a maioria das organizações opera em ambientes híbridos, multi-cloud, com workloads distribuídos, colaboradores remotos, APIs expostas e integrações constantes com terceiros. Nesse contexto, ataques modernos deixaram de focar apenas no ponto inicial de invasão e passaram a explorar, de forma sistemática, a movimentação lateral dentro das redes. Esse padrão é amplamente documentado em relatórios de ameaças da CrowdStrike, no Verizon Data Breach Investigations Report e no framework MITRE ATT&CK, todos reconhecidos como referências na área. É justamente nesse ponto que segmentação e microsegmentação deixam de ser apenas boas práticas técnicas e passam a ser elementos estratégicos da arquitetura de segurança.